Tickets
Tickets
Gênero(s):
Comédia
Tipo:
Filme
Duração: 109 min.
Visualizações: 1523
Ano de Lançamento: 2005
Tickets”, longa que se passa em um trem italiano rumo a Roma, reúne a vocação humanitária de três grandes mestres do cinema contemporâneo – Ermano Olmi, da Itália; Abbas Kiarostami, do Irã, e Ken Loach, da Inglaterra. Embora se distinga o estilo de cada diretor, não se pode dizer que se trata de um filme de episódios. Personagens de vários compartimentos e origens se entrelaçam em uma única ação, em uma mesma viagem.
O primeiro segmento é de Ermano Olmi. O império da segurança faz com que todos os vôos sejam cancelados. Um velho farmacêutico consegue voltar para casa de trem graças à assistência de uma eficiente secretária do laboratório onde foi palestrar. Enquanto alimenta sua imaginação com imagens de puro fetiche (uma jovem vizinha que tocava piano na sua infância, a sedutora assistente do laboratório) o trem vai apresentando os passageiros que terão voz nos dois segmentos seguintes, no divertido de Abbas Kiarostami e no quase trágico de Ken Loach.
Os passageiros de Kiarostami criam ilusões de perspectiva. Um processo equivocado de assistência social, com tráfico de influência, faz com que um jovem vire criado de uma viúva de um general italiano, rumo ao cemitério no primeiro aniversário da morte do militar. Ao invés de servir o exército, o não-soldado é servo da viúva. É incrível a percepção do mestre do cinema iraniano que consegue captar tantos elementos da real vida italiana em tão curto período de tempo.
Há também uma adolescente de 14 anos que brilha nos diálogos do filme. “Eu a escolhi na estação, foi puro acaso”, disse-me o mestre. Consultor de roteiro para ter a psique italiana? “Não escrevi roteiro algum, só dava a cada seqüência as linhas do diálogo e deixava a espontaneidade agir”, completa para o meu espanto. O resultado é divertido, intrigante. Para o próprio Kiarostami e ao seu novo e jovem produtor Carlo Cresto-Dina que já anunciaram a filmagem de um novo longa italiano e desta vez inteiramente dirigido por Abbas Kiarostami. Será como uma continuação de “Tickets”, do ponto de vista da viúva que salta do trem, ganhando o espectador mais uma imprevisível intimidade.
O cineasta brasileiro Walter Salles, vitorioso com distintas premiações internacionais para o seu “Diários de Motocicleta”, encontrou Abbas Kiarostami pela primeira vez em Berlim. E lhe disse considerá-lo um dos maiores cineastas do mundo e que o seu filme “Onde fica a casa do meu amigo” um dos melhores filmes da sua vida. “E qual foi o cineasta que mais o influenciou na vida”, perguntou Salles. Rossellini ou De Sica como resposta, os mestres do neo-realismo italiano? Não! Abbas Kiarostami surpreendeu revelando algo inédito: “O cineasta que mais me influenciou de todos que vi filmes na vida foi o Buster Keaton”, um dos gênios da era muda do cinema americano.
Neo-realista ou não, e com uma sensibilidade humanista exemplar, Buster Keaton pode ser a nova contribuição de Abbas Kiarostami para dar frescor ao cinema italiano que ele agora abraça com o produtor Carlo Cresto-Dina. Quem ver “Tickets” saberá como já se cria ansiedade esperar para continuação da história da viúva italiana.
Finalmente é Ken Loach que encerra este filme abençoado. Três torcedores escoceses vão ter um dramático cruzamento com uma família de albaneses que estão vindo ao encontro do pai refugiado. A família albanesa cruza os três episódios e é em Ken Loach que se revela a tragédia ou o moderno flagelo da imigração indesejada na Europa atual. É solidariedade que pede o terceiro mestre-cineasta desta graciosa e bem-vinda produção.